sábado, 18 de julho de 2009

QUANDO O PROGRAMA É FAZER NADA


Uma das missões que tenho nessas páginas é lançar luzes sobre particularidades do mundo masculino. Mas não falar de cabelo na orelha ou futebol. Gosto de descascar almas, fazer com elas o mesmo que se faz com as cebolas.
Um exemplo é a Tecla Dane-se. É assim: a mulher do casal, você, chega com um assunto de suma importância - uma conversa que rolou no trabalho. Você começa a contar, e ele fica olhando. Parece que está prestando atenção. Mas, não: é a Tecla Dane-se a plena potência! Ele nem pisca, mas o cérebro está no Xangri-Lá masculino - onde só existem charutos e marcas de automóvel. Você fala, ele eventualmente balança a cabeça, faz "hmmm-hmmm", mas a atenção está em outra dimensão. Faça o teste: no meio da conversa sobre o trabalho e a equipe, solte um "daí fiquei tão fora de mim que gastei dois mil reais em meias". Se ele nem piscar o olho, é a Tecla Dane-se acionada.
Agora resolvi lançar luzes em outra particularidade do relacionamento entre opostos. Quero discutir o ato de fazer "nada". Imagine um sábado em que o casal combina que naquela tarde fará simplesmente "nada". Normalmente, o homem se joga no sofá e fica vendo TV até o soninho chegar. Se não chegar, sem problema. Vamos manter o plano inicial e ficar ali mesmo, no sofá, quando muito só procurando algum documentário sobre o Egito. Sempre acham uma múmia nova, é um mercado que cresce muito o dos faraós. Sempre tem assunto. Ótimo. Grandes ambições para esta tarde. E a moça, claro, que planejasse o seu "nada". Pode ser ler um livro, fazer hidratação no cabelo, enfim: várias opções de "nada". Acontece que em cinco minutos ela arruma um quadro pro homem pregar, quer sair pra ir ver um tapete, fazer um bolo de cenoura, enfim: quer corromper o conceito de fazer "nada". Daí dá briga, mau humor, essas coisas. Ninguém quer brigar num sábado desses.
E é difícil fazer "nada". Sujeito distrai, pronto: já está cortando a unha, batendo um ovo, atendendo ao celular - o que, embora pouco, é alguma coisa. No que caímos em semântica: o que é fazer "nada"? É diferente daquele papo furado do italiano gordinho, aquele de O ócio criativo*. Ali, o "nada" é ficar pensando na banheira e, pimba!, olha que ideia boa que apareceu. Que nem Arquimedes**. Aqui, não. Aqui o fazer "nada" busca xongas nenhuma. Se descobrirem alguma fórmula ou remédio ao se fazer "nada", então o cara errou. Fazer "nada" é mais que preguiça - é causa, orgulho. Quando muito, admite-se ir buscar um copo de coca na cozinha. Ir atender ao telefone é, definitivamente, algo. Há gasto de energia. Logo, é quase uma esteira ergométrica. Ninguém quer ficar na esteira ergométrica num sábado, ainda mais com tanta coisa acontecendo no Egito. Agora, e olha que legal: fazer "nada" fica melhor com companhia. Então, em vez de ver quem ligou, de pregar um quadro ou arrumar a estante de CDs, que tal ficar assim, enroscada no parceiro, de meia mesmo, gostosinho, vendo TV? Só um último cuidado: quando um casal fica assim, muitas vezes o "nada" acaba virando "algo" - uma encenação de Marco Antônio e Cleópatra em pleno sofá. Esse algo, sim, a gente aceita...!
** A sugestão acima, ficou por conta de Lusa Silvestre, publicitário e autor do livro Pólvora, gorgonzola & alecrim. Foi roteirista do filme Estômago, premiado em vários festivais.

5 comentários:

Raquel Medeiros disse...

Oi, Lisa, ainda vai querer aquela blusa quadrada? Se ainda quiser me avisa pelo fone 92461577 ou contato@raquelmedeiros.com.br. Tenho uma outra moça interessada na peça. Beijo, Raquel

bacouca disse...

Lisa,
Achei delicioso o texto!Mas acho que o final é uma ratoeira! Enroscada no parceiro acaba fazendo muito: falar, acarinhar, ginasticar, fantasiar, etc, etc, até acabar deliciosamente relaxada!
Um bom fim de semana...relaxado!

Andrea disse...

Lisa ,adorei o post rs..o último fazer nada foi o melhor ..
Beijão pra vc

Aninha Leme disse...

Oi, querida!
eu li essa semana esse texto em alguma revista feminina...
é incrível a diferença do "não fazer nada" dos universos masculino e feminino, não?
demais!

beijos

Luz disse...

Lisa

Por enquanto vou ficar no nada " feminino" é mais saudável para mim...hehehe