quinta-feira, 20 de agosto de 2009

DICA DE FILME

Na Paris de 1970, Anna de la Mesa (interpretado pela brilhante Nina Kervel-Bey), tem 9anos e é uma perfeita lady. Adora ensinar aos primos mais novos a maneira correta de saborear uma laranja com garfo e faca, ensaia a maneira correta de segurar uma taça de champagne. Seu pequeno universo é formado pelo colégio católico — habitado por várias outras pequenas damas como ela —, pela escola de natação e pela linda casa ajardinada onde mora com os pais, o irmão mais novo e a babá, uma exilada cubana. Mas toda essa harmonia é quebrada com a chegada da tia e da prima de Anna, que fugiram da Espanha após o assassinato do tio, um militante contra a ditadura de Franco. O pai, vivido por Stefano Accorsi, é um advogado espanhol que vive na França desde jovem. A morte do cunhado e a efervescência política da época (entre 1970 e 1971) levam o pai de Anna a rever seus princípios.
Ele deixa o emprego, troca a casa por um pequeno apartamento e passa a atuar como intermediário do movimento para eleger Allende presidente do Chile. A mãe, interpretada por Julie Depardieu (filha de Gerard Depardieu), deixa seu posto como jornalista da revista "burguesa Marie-Claire" para escrever um livro-reportagem em prol do direito feminino à contracepção. A babá cubana, anticomunista até o último fio de cabelo, é substituída por uma série de militantes estrangeiras, que buscam abrigo na França. Elas não têm grande jeito para o cardápio das crianças e inovam com pratos gregos e sul-americanos.
O novo apartamento vive cheio de pessoas estranhas: "os barbudos" chilenos amigos de seu pai e um monte de mulheres chorosas, que dão depoimentos para o livro que a mãe irá escrever. Além disso, a garota passa a dividir um beliche com o irmão François e é proibida de assistir às aulas de religião — condição colocada pelos pais para que ela possa permanecer no colégio católico, de onde se recusou a sair. Dividida entre a realidade conservadora da escola e a complexidade das mudanças que, acima de tudo, afastam os pais de seu dia-a-dia, Anna se rebela.
Os pais se desdobram para lhe mostrar a importância do momento histórico, ao mesmo tempo em que tentam se convencer de estarem no caminho certo. A pequena Anna desafia o tempo todo com as convicções dos militantes e com a convivência, amplia sua visão de mundo.
A Culpa é do Fidel foi adaptado do romance Tutta Colpa di Fidel, da jornalista italiana Domitilla Calamai que, assim como a diretora do filme, cresceu num lar comunista. O filme é bem-humorado, com tiradas inteligentes e engraçadíssimas, e é esplendidamente fotografado, tem ótimos diálogos, cenas densas, impactantes e divertidas, e um elenco de primeira, a começar por Nina Kervel-Bey , escolhida entre 1000 crianças. Longe de ser um panfleto a favor ou contra o comunismo, o filme nada mais é do que uma brilhante história sobre Anna aprendendo a crescer e descobrindo que o mundo não é só preto ou branco.
Mas o grande feito de Julie Gavras é retratar uma trajetória pessoal emocionante sem jamais ser piegas. A prova disso é a cena final, brilhante — que embora dura e aborrecida, a "infância comunista" tem o grande mérito de infundir em algumas de suas "vítimas" um senso de contestação para lá de bem-vindo. Julie Gavras realizou um trabalho emocionante, que toca de forma profunda seu objeto de estudo e destinação: o humano.

3 comentários:

R.Vinicius disse...

“– Gosto do formato deste filme, a história; deu-me vontade não apenas de vê-lo, como de lê-lo nas linhas da escritora italiana. Sanando sua dúvida a respeito do que eu lhe disse anteriormente; o trabalho, embora pesado, cansativo e alheio a meu gosto, me é de alguma forma legal, pois me permite não apenas discorrer com mais conhecimento sobre ele, como acrescentar algo a minha formação de homem. Em todos os trabalhos nos quais trabalhei, pude acrescentar ao meu caráter, a rotina, de forma que hoje posso com uma desenvoltura melhor fazer algumas coisas como “cozinhar”, “conversar”, “fazer doces”, entender algo de economia, culinária, fotografia, informática. Não adiei meu caminho, apenas lhe conferi contornos diversos. Hoje enquanto estava trabalhando, me encontrava triste e por hora pensei “sobre o luxo de perder o tempo com coisas que não me agradam” afinal a vida é efêmero fardo, o tempo imutável. Pensei sobre o absurdo da vida, que ocorre acidentalmente, sem aviso, sem vontade, apenas como um destino que assoma tudo para dar cabo. E como haverá de ficar a vida, quando não mais houver o que há? Ocorreu-me pensar como aconteceria a vida, caso eu não fosse escritor. Ocorreu-me pensar.” Agora para cumprir minha promessa e lhe deixar provisoriamente, lhe entrego um trecho do livro Libertinagem do Sol.

Introdução.

Um bilhete de trem não utilizado ..

“Este livro transcorre no breve espaço de uma viagem final. De carro, num Facel-Vega dirigido pelo editor Marcel Gallimard, Albert Camus, um francês-argelino de 47 anos de idade, está indo para Paris. O itinerário começa na cidade de Sens e acaba perto de Villeblevin. Aí, num local conhecido como Le Grand-Frossard, a 4 de janeiro de 1960, morria Camus. De olhos abertos, entre os ferros retorcidos do carro. Ele, que tinha pensado na justiça dos bens naturais, foi injustiçado por uma má manobra e uma árvore. A imaginação sempre se agita com uma morte súbita. Ele é o que podia não ter acontecido. Mas é também o que aparece com a irretocável gratuidade do repentino.”

Outro trecho. “No entanto, vai sendo sempre preterida por alternativas, até que um dia ela se decide pela consumação. Numa estrada, então, de repente alguém é empurrado; Camus tinha no bolso um bilhete de trem sem uso, para o mesmo itinerário. A catástrofe quando acontece comove. Todavia, comove ainda mais, quando se deixa os indícios de que poderia não ter ocorrido.”

Já dizia Pessoa "Morrer é não visto na curva da estrada" ele sabia o que dizia. Abraço.

bacouca disse...

Lisa,
Eu após a revolução em Portugal sai do País para o Vabenne continuar o seu curso de arquitectura. Também a barafunda era demais para mim... Trabalhei em várias coisas e vivi com um chileno fugido do regime de Pinochet. Foi uma experiência única!
A dica do filme deixou-me muito curiosa e em breve contarei a minha história...
Um beijinho

Heloísa disse...

Lisa,
Adorei seus comentários sobre La faute à Fidel, e fiquei com muita vontade de assistir o filme. Como você, gosto muito de filmes franceses.
Beijo.