domingo, 27 de setembro de 2009

CULPA ZERO / MARTHA MEDEIROS

Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo a filha no colégio e busco, estudo com ela, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão, a igreja, acredito e oro a Deus e ainda faço escova toda semana - e as unhas! E, entre uma coisa e outra, leio livros. Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic. Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres. Primeiro: a dizer NÃO. Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
Culpa por nada, aliás. Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero. Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros. Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho. Você não é Nossa Senhora. Você é, humildemente, uma mulher. E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável.
É ter tempo. Tempo para fazer nada. Tempo para fazer tudo. Tempo para dançar sozinha na sala. Tempo para bisbilhotar uma loja de discos. Tempo para sumir dois dias com seu amor. Três dias. Cinco dias! Tempo para uma massagem. Tempo para ver a novela. Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza. Tempo para fazer um trabalho voluntário. Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto. Tempo para conhecer outras pessoas. Tempo para voltar a estudar. Para engravidar. Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado. Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir. Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal. Existir, a que será que se destina? Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem. Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si. Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo! Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente. Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C. Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores. E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante'. (Martha Medeiros)

6 comentários:

mar e ilha disse...

adoro este texto. Uma ótima semana para vc.

Elisa no blog disse...

Sei que este texto é para todos os seus leitores, mas vc disse que é em minha homenagem, fico muito contente.

Muito bom que vc esteja caminhando, você não, vocês. Espero que continuem sempre. O tempo está melhorando em PA , não?
Aqui está esfriando.
bisou

Aninha Leme disse...

querida!
tem um selinho pra vc no meu blog!
besosss

R.Vinicius disse...

Oi Lizzie.

Gostei do texto e acredito que ele pode ser pensando como um todo, para todo e qualquer leitor, pois o homem também tem a tendência de buscar aprovação, de ter independência – também como a mulher, o homem torna-se escravo de um movimento, que inicialmente sutil, acaba por ganhar força e descer ladeira a baixo, até que a morte o pare, ou alguma situação o faça mudar o rumo. Bom para refletir. Abraço. Ótima semana.

Mônica disse...

Este texto deve ser lido, um dia sim e o outro também .
Mas eu penso que sou privilegiada, não que tive tudo na mão, mas tive o essencial todas as vezes e o superfluo quando quero. E além disto tenho minhas quatro irmãs a me paparicarem. Fico até envergonhada de não saber muitas coisas de tecnologia, mas não fico deprimida porque sei que elas estão por perto.
Sou privilegiada e o pior é que sei disso. E agora como vou retribuir?
Com carinho Monica

Nova York está na portinha e sabe aquele frio de arrepiar, para saber sobre o desconhecido? E assim que sinto. Dia 21 estaremos partindo.

Elisa no blog disse...

Eu tb estou com vontade de ir com as meninas-irmãs para NY.

Seu namorado gosta mesmo de F1! Acordar às 5 da manhã só para ver treino?
Fiquei emocionada de ter andado nas avenidas que viram pista de F1. Não sei se dá para entender, é uma sensação diferente.

Kissu