segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O TEMPO E AS JABUTICABAS /RUBENS ALVES

'Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão-somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.'O essencial faz a vida valer a pena.

13 comentários:

Mônica disse...

Lisa
Eu sou fã de Rubem Alves
Ele dá cada lição na gente!
Será que vou conseguir ler o que perdi?
Compramos, comemos, rimos e nos encantamos com Nova York. Tudo demasiado!
Com carinho Monica
Quanta saudade, ainda não matei a saudade

Andrea disse...

Lisa ,que texto lindo !!
Saudades de vc ..
Depois postarei alguma coisa sobre nossa viagem

Luz disse...

Lisa,

Sou amante do Rubem.
O Texto é showwww.
Uma delícia.
Beijos saudosos

Mar Ilha disse...

Lisa que texto lindo. Não conhecia. Vou lermais Rubem Alves. beijos e uma ótima semana de trabalho. (ainda bem que essa é pequena pque ainda estou cansada).

Monica Loureiro disse...

Eu amo Rubem Alves, e faço minhas as palavras dele....
Perdí um amigo neste final de semana , e me convenço que o tempo está passando, para desperdiçarmos com bobagens....Já tinha colocado este texto uma vez no meu blog, mas mexeu comigo de novo...

R.Vinicius disse...

Lizzie - eu conheci mais uma vez mais, algo que me agrada. Obrigado pela amizade.

Abraço.

Heloísa disse...

Lisa,
É exatamente isso que quero para mim. Já havia lido na Folha de São Paulo, e gostado muito.
Boa semana.
Beijo.

Elisa no blog disse...

Eu já tinha lido esse texto não sei onde. Mas foi bom relê-lo. Ótima escolha.

JCesar disse...

Olá Lisa, passe no meu blog. Tenho um presente para você. Espero que goste.
bj
JC

Michele Mitsue disse...

Muito legal esse texto e oportunamente postado e lido =)

JCesar disse...

Oi, voltei, não para comentar, porque para isso esse espaço não basta (há poucas jabuticabas). O texto é profundo como próprio de Rubens Alves, que "conheci" pelo livro: "Em busca de Ordem", aqui na universidade. Já lera Rubens tantas outras vezes, mas, como diz ele, 'nesses' momentos eu talvez estivesse atento aos rótulos. De fato a idade cronológica não traz a maturidade. Para isso, é preciso a experiência imediata, a vivência, no jargão popular. Muitos não o apreciam por ser polêmico, principalmente em relação a divindade. Não conhecia esse texto e o li 3 vezes antes de tecer comentários. Não por não haver compreendido ou pensar no que falar, mas porque o mesmo fazem pulsar os neurônios em reflexão. Nos faz exercitar o que temos de mais soberano e liberto: o pensamento. Estou aqui escrevendo e contendo o desejo de lê-lo novamente. A destacar: '...as pessoas não debatem conteúdos, apenas rótulos.'
e os dois últimos parágrafos. ...e como parece soar difícil encontrar hoje uma pessoa sem fráude!
As jabuticabas vão diminuindo e vamos percebendo outros atributos. Enquanto meu filho se atem a beleza plástica feminina (eu, como artista plástico não nego essa faceta) eu me atenho a medidas que não são mensuráveis em centímetros. É a questão do 'fundamental' e do 'essencial'.

bj
JC
PS:aqui em Sampa está muito quente desde sabado. Calor em centro urbano é sempre complicado.

JCesar disse...

rs... sobre seu comentário "(...)eu não me importo com o que(...)" concordo com cada palavra, ok!
Tenho um selinho especial para você, mas que acabei deixando no meu micro (em casa).
Sobre o selinho, vem de sentir uma necessidade muito grande de lhe presentear e pelo que vi pelos blogs o selinho é esse "instrumento", demonstrador de carinho e afeto.

Era o mínimo que poderia fazer para alguém que desde que chegou só me fez sorrir.

Acho que vou imprimir o selinho que me destes, plastificar e levar na carteira!

(É engraçado, mas quando li na sexta-feira que você estaria off 3 dias bateu uma 'dorzinha'...sendo que o curioso é que não nos vemos mesmo! o que mudaria? ...psicológico!rs)

Sobre afinidades e diferenças, acho que não há amizade que sobreviva somente com uma dessas categorias (e muito menos relacionamento, que não sobrevive sem amizade). Quando faço panetone, adiciono sal a massa doce. Quando faço molho de tomate, adiciono açucar, (yogurte a salada, frango com manga, manga e passas com folhas, passas e beringela ao forno). Acho que uma coisa está para a outra e em cada momento é dosar a dose certa para ter-se a melhor combinação.

Obrigado por sua amizade e por sua amabilidade.

JC

Anônimo disse...

Por favor, leiam O Valioso Tempo dos Maduros...MARIO DE ANDRADE!!!!!